sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Os Donos da Rua


O Conexão Repórter se infiltra no mundo dos guardadores de carro, mais conhecidos como flanelinhas. Nosso produtor tem uma missão: vai se passar por um flanelinha. Tudo será registrado pelo nosso cinegrafista com câmera escondida. Queremos saber como agem os donos da rua.

Um moleton cinza, um agasalho preto e uma touca. Nosso produtor flanelinha está pronto para encarar as ruas. Estádio do Morumbi, zona sul da capital paulista. Semi-final da copa Libertadores da América. Dia de muita movimentação nas ruas em torno do campo. Motoristas estacionam e os flanelinhas determinam as vagas. O carro da nossa equipe é disputado pelos flanelinhas. O território é defendido centímetro por centímetro.

Nosso produtor flanelinha resolve disputar o território. Outro flanelinha se aproxima. Ele parece ser o chefe do pedaço.
Nosso produtor recebe uma aula básica de como deve abordar um motorista e resolve colocar em prática a aula recebida. Dentro do estádio, o placar final foi dois a um para o São Paulo em cima do Internacional, mas a vaga para a final da taça Libertadores da América ficou com o time gaúcho. No apito final onde estão os flanelinhas?

No dia seguinte nosso destino é a movimentada 25 de março. Nosso produtor vai tentar trabalhar de flanelinha na mais famosa rua de comércio popular. Os flanelinhas não se intimidam com a presença dos fiscais da CET - Companhia de Engenharia de Tráfego. Os marronzinhos apenas fiscalizam a zona azul e carros estacionados em local proibido. A convivência com os flanelinhas é tranquila.

Aqui mais um registro do descaso com as leis de trânsito. O flanelinha indica um local proibido, embaixo de um elevado. O motorista estaciona, sai do carro, mas é informado que tem que pagar adiantado. Sem saída, ele abre o carro, pega o dinheiro e paga o flanelinha. Poucos minutos depois, o mesmo flanelinha coloca outro carro atrás do estacionado anteriormente. Em seguida, um terceiro carro chega. Em pouco tempo, uma fila de veículos estacionados em local proibido.

Vila Madalena, zona oeste de São Paulo. Aqui as noites fervem. São bares e restaurantes lotados a semana inteira e a velha pergunta dos motoristas: onde deixar o carro? Nas mãos dos valets. São 20 mil só em São Paulo que manobram quatro milhões de carros por mês. Em São Paulo, esse tipo de serviço é regulamentado por lei. Os estabelecimentos comerciais tem que informar o endereço e o valor do seguro que vai proteger o carro enquanto ele estiver estacionado. Por falta de fiscalização, os motoristas ficam a mercê da sorte. Mas olha só o que o manobrista faz. Depois de fazer uma conversão proibida, ele pára na rua e coloca o carro numa vaga de portador de deficiência física.

O motorista paga em média 15 reais por um valet em São Paulo. Dinheiro para garantir a segurança. O que acontece, de fato, é que os carros ficam mesmo é nas ruas e, muitas vezes, em local proibido. E as irregularidades não param. Este manobrista dirige o carro do cliente na contramão. Este outro deixa o carro na faixa de ônibus.

Mais um dia de futebol em São Paulo. O estádio é o Pacaembu. O clássico reúne as duas maiores torcidas do Brasil: Corinthians e Flamengo. Nosso produtor mais uma vez está disfarçado de flanelinha. Agora chega outro flanelinha querendo saber se nosso produtor va dividir a vaga. Outro produtor da nossa equipe, tenta estacionar o carro em locais que já foram demarcados pelos flanelinhas. Não demora muito o guardador aparece. Desconfiado de que está sendo gravado, ele muda de comportamento e deixa nossa equipe estacionar, mesmo dizendo que não tinha dinheiro para pagar.

A Polícia Militar entra em campo com reforços para intimidar e reprimir assaltos, ambulantes irregulares e flanelinhas. A escolha do dia não poderia ser melhor: um clássico com uma estimativa de público de 30 mil. A operação militar de combate aos flanelinhas reúne 380 soldados e começa três horas antes da partida. No final da operação 10 suspeitos de aturarem como flanelinhas são detidos para averiguação.

Fórum de Santo Amaro, zona sul de São Paulo. Aqui flanelinha tem nome, sobrenome e muita história. Seu José Ramos de Oliveira tem 63 anos. Desde os 18 trabalha como guardador de carro. Só neste ponto está há 25 anos. Veio de casa, também, o ofício de guardar carros. O filho do seu José, Celso, também divide com o pai os clientes do forum.

A necessidade de trabalho não pode jamais ser um pretexto para a ilegalidade. Guardar carros pode perfeitamente ser uma atividade exercida com dignidade. Para isso são necessárias regras e fiscalização do poder público. Quando as autoridade se omitem, ruas se transformam em selva. Fonte: Conexão Repórter

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